Black

Black
Em Lagos, na Meia Praia com o nariz cheio de areia

Hoje deixaste-nos...

Tiveste de partir... é assim a impermanência das nossas efémeras existências. Não consegui deixar de ficar triste com a tua ida mas estou ainda mais feliz por teres acontecido. Por ter partihado, durante quinze anos, a tua comapnhia. Sempre te disse que eras o melhor cão do mundo. Matenho a afirmação. Saudades de alguém a quem deste muito e que espera ter correspondido.

Thursday, March 8, 2007

"Bléquezinho"

Quis ligar-te irmão! Não o fiz. Ia começar a choradeira de novo e entre fungadelas e balbúcios fica difícil perceber o que temos para dizer.
Não me surpreendeste. Não te conheço assim tão mal. O que não me impede de estar profundamento grato pelo teu apoio e pelo teu "bléquinho". Pelo Black que tu viste e que é, em muitos aspectos, também o meu.

Sabes, acho que todos os cães nunca são simplesmente cães. Da mesma forma que todos os gatos não são simplesmente gatos ou todos os pássaros não são simplemente pássaros. Nem mesmo as minhocas e as bactérias são simplemente minhocas ou bactérias. Também os cães, gatos, pássaros, minhocas ou bactérias que ascenderam à categoria de CÂES, GATOS, PÁSSAROS, MINHOCAS ou BACTÉRIAS, serão sempre mal qualificados. E a razão é simples: é que somos nós, os autointitulados suprasumo do processo evolutivo, quem os mal qualifica.
Não consigo ver esses mesmos CÃES, GATOS, PÁSSAROS, MINHOCAS e BACTÉRIAS sem ver neles um reflexo de mim própio. Sei que esses CÃES, GATOS, PÁSSAROS, MINHOCAS e BACTÉRIAS, à minha semelhança, apenas buscam encontrar aquilo que lhes dá conforto e evitar o que lhes causa sofrimento - esta é a essência última da vida.
No fundo somos todos assim. De formas diferentes sem dúvida. Uns, como era o caso do nosso "bléquezinho" contentam-se com uma carícia, um colinho aconchegado e um naco de comida furtado à socapa. Outros, como o bicho Homem, precisam de DVD's, carros, computadores, aviões e um sem número de acessórios que complicam a vida, mascaram os afectos e promovem a exploração daqueles que, cínica e convenientemente, chamamos de simplesmente cães, gatos, pássaros, minhocas ou bactérias.
Sempre soube disto. Não sei quem mo ensinou, mas quem o fez, fê-lo de tal forma cedo que nem me lembro de o ter aprendido. Talvez seja por isso que quando chego a um restaurante ou café com o conhecido letreiro a dizer "Proibida a entrada a animais" hesito sempre. Não por raiva ou protesto mas simplesmento porque tenho consciência que quando entrar estarei a violar a proibição.

Não deixa de ser estranha a forma como este CÃO que, como dizes, foi mais que CÃO uniu a nossa família, por vezes fisicamente separada por um imenso Atlântico. Diz-nos o reducionista e científico materialismo que o fez sem consciência. Quinze anos de convivio próximo (que incluiu frequentes partilhas de cama com rosnadelas e refilanços quando se sentia incomodado) levam-me a ter sérias dúvidas de que assim seja. É certo que nunca teve uma consciência total dos efeitos das suas acções. Mas quem a tem? Quem tem consciência das repercursões globais de um sorriso, de um gesto simpático ou da adopção não-autorizada de um cão.
Lembras-te?... Há quinze anos ainda vivia em casa dos pais. Sempre quis ter um cão mas eles nunca deixaram. Apanhei-os de férias três meses no Brasil e ala, adoptei o "bléquezinho" - que só não se chamou Aristóteles porque a "vó Bia" não conseguia pronunciar o nome. É claro que nem na altura, nem agora tive plena consciência das repercursões totais da adopção. Foi uma consequência de diferentes causas (entre as quais se contam a ida do nosso tio António para o Brasil) e condições e é ela própria causa de diferentes acontecimentos. É simplesmente demasiado complexa a trama da vida para ser apreendida pela racionalidade redutora.
Uma das consequências dessa adopção foi esta troca de mensagens, esta comunicação, o surgimento do blog. Outra é a felicidade renovada de pertencer a esta família alargada (aos amigos) que sabe ver além das caras e mesmo além dos corações.
Estou melhor. Já consegui escrever todo este mail sem verter uma lágrima e acabei de o ler com um sorriso, ainda triste, nos lábios. Sei que a dor vai atenuar, sei que tenho irmãos, primos, amigos e companheiro em quem me apoiar. Também sei que depois fica aquela saudade doce e acolhedora. Saudade que, quando as recordações nos vêm à lembrança, nos põe um sorriso nos lábios e um brilho (apenas ligeiramente) húmido nos olhos.

Já chorei outros mortos. E porque sei que todos os animais são iguais choro mais este, com saudade como chorei os outros, mas sem estranheza nem vergonha.

Aos amigos e familiares, que foram apanhados neste fogo cruzado de mensagens, agradeço os telefonemas, as SMS's, os mails e as palavras de conforto. Um grande Bem-haja a todos.

"Bléquezinho", a ti que nasceste no dia de anos do meu sobrinho mais velho, um IMENSO BEM-HAJA, por tudo o que fizeste e continuas a fazer.

Sarva Mangalam - é sânscrito e significa "Possam todos os seres atingir a felicidade".

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